quarta-feira, 13 de agosto de 2014

Mozart, Beethoven, vida & sotaques



Mozart, Beethoven, vida & sotaques




Fui ao concerto da OSPA hoje apenas como ouvinte. É bem legal fazer isso de vez em quando - prestigiar os colegas e simplesmente ouvir música.

Pouco antes da música começar, um colega me confidencia que os ensaios não chegaram a entusiasmar. Que ao regente/solista convidado faltaria um pouco de “pique”, um pouco mais daquela complexa habilidade de comunicação que os grandes regentes costumam ter: transmitem o que querem transmitir com rapidez e eficiência, seja usando a palavra falada, cantada, a linguagem corporal, ou uma combinação de tudo isso; nunca fazem do ensaio uma palestra, nunca param a música demasiadas vezes e a intervalos muito curtos, nunca deixam dúvidas sobre o rumo traçado e por quê. Eu confio na sinceridade e na capacidade do colega, e por isso mesmo a surpresa foi ainda mais agradável.

Meus ouvidos me disseram coisas completamente diferentes!

Já o primeiro tutti do concerto para clarinete do Mozart brotou com uma sonoridade especial.

foto Augusto Maurer
A sonoridade da orquestra estava diferente de tantas outras vezes em que tocamos este mesmo Mozart. Mais transparente e sutil, e no entanto muito energética. Muito provavelmente o resultado de um meticuloso trabalho na coesão rítmica, na articulação, e na padronização de planos dinâmicos e também de acentos e sforzatti; e de uma feliz escolha de andamentos, que suponho ter levado em conta as ingratas características da sala. (Tudo isso iria render ainda mais frutos mais tarde, na 7ª Sinfonia do Beethoven.)

Uma fotografia delicada, e no entanto com forte contraste.

Lembrei-me de uma frase do Lavard Skou-Larsen em sua primeira passagem pela OSPA como regente convidado. Ele falava de como Mozart tem a ver com Salzburg, e de como o clima de Salzburg é dado a extremos de frio e calor, e como Mozart - ao contrário da imagem fofinha imposta a ele pela kitschização (esse triste e inevitável fenômeno tão bem descrito por Kundera) - contém esses afetos inequívocos, em tudo diversos da paisagem plana, homogênea e monótona que muitas vezes impomos àquilo que chamamos "Classicismo".

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foto Augusto Maurer

A 7ª do Beethoven veio ao mundo na mesma tonalidade de Lá maior do concerto para clarinete do Mozart, e faz com este um par perfeito em um programa de concerto. Mas o interessante é que as virtudes de sonoridade,  articulação, coesão rítmica, balanço sonoro, escolha de andamentos etc. - que se haviam manifestado no Mozart - renderam ainda mais frutos no Beethoven; cuja música tende a ser mais "pontuda", minada de acentos e staccati e silêncios e coisas assim; claramente instrumental, não vocal, na sua essência.

[ Neste momento, o sono e o cansaço batem à minha porta, ao mesmo tempo em que as impressões mais complexas vão se escapando da memória. Não vou entrar em detalhes interpretativos, assim como nem cheguei a comentar o excelente "clarinetismo" do solista/regente François Benda. Isto não é uma crítica de concerto; apenas uma crônica recheada de devaneios ]

Quero ainda mencionar que além de curtir muito a música, que prendeu minha atenção todo o tempo - isso não é pouca coisa - fiquei bastante orgulhoso da "minha" orquestra.

Primeiro, porque lembro muito bem de épocas passadas quando nossos defeitos eram maiores. Essa coesão rítmica que mencionei é um exemplo importante. Uma orquestra pode soar desencontrada, aceitavelmente junto, bem juntinho, e super coesa. Alguns instrumentos tendem a soar "adiantado" enquanto outros tendem a uma certa letargia. Também existem manias individuais. A coesão não se dá por meio de um mero princípio de sincronização matemática; geralmente ela se produz através de um esforço inteligente de coordenação dos eventos a partir de princípios musicais. Por isso uma orquestra tocando coesa soa muito melhor do que qualquer computador executando uma partitura. Lembro de um concerto da OSPA com o grande Leon Spierer dirigindo e tocando a Serenata para cordas de Tchaikovsky - tinha essa qualidade de coesão, as vozes agudas não corriam, as graves não atrasavam, o grupo era um organismo vivo e coordenado. Hoje ouvi algo semelhante, porém no contexto mais complexo da orquestra completa.

Segundo, porque a OSPA começa a mostrar uma capacidade de ser flexível e realizar diferentes interpretações da mesma obra. Lembrei que há cerca de 3 anos tocamos esta mesma Sétima, na mesma desanimadora sala, também com um solista/regente, Ransom Wilson. Foi uma versão convincente também, pelo que me lembro. Mas completamente diferente de hoje. Aquela tinha um pouco de um sotaque alemão antigo - um tipo de "satter Klang", som super cheio, saturado (no bom sentido da palavra). Esta, um sotaque levemente francês (ou seria o sotaque alemão atual - Benda leciona em Berlim - pautado mais pela prática historicamente informada do que pela grandiosidade da era Karajan?). Aquela teve andamentos minuciosamente testados nos ensaios; esta também, porém com um pouco mais de ousadia, reforçada pela agudeza na articulação/emissão; o que beneficiou o Scherzo, por exemplo - ficou mais cintilante, e as frases em pianissimo soaram ainda mais mágicas.

Eu creio que tanto o progresso em aspectos musicais gerais (coesão rítmica p.ex.) como aspectos mais sutis (como a incipiente flexibilidade interpretativa) têm relação direta com o fato de termos tido oportunidades muito mais numerosas do que em outras épocas de trabalhar com diversos regentes convidados, sendo a maioria deles verdadeiros artistas, realmente devotados a fazer música, no interesse do público e da orquestra mais do que da própria "carreira". Trabalhar com excelentes regentes tornou-se regra, e não exceção. Existe um processo participativo na gestão artística por trás disso tudo.


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É possível dizer alguma coisa nova com obras tão repisadas? Sim, é possível. Mas claro, não basta que alguém diga; há que se ter ouvintes  capazes de perceber a vida se manifestando em forma de música no instante presente. Não se trata de uma novidade absoluta, é claro; se trata de detalhes que fazem diferença; e de manejar as circunstâncias - que no caso incluem a acústica árida do Dante Barone. Ao lograr dizer a música de uma maneira especial - com sentido - mesmo a melodia mais batida, mesmo em circunstâncias longe das ideais, adquire um frescor que faz valer a pena ter saído do conforto do lar numa noite tão fria. De bicicleta, no meu caso.

Às vezes essa experiência é tão gratificante que produz o desejo de falar ou escrever a respeito, de tentar compartilhar algo dessa experiência com outras pessoas. O que não é possível - não se pode engarrafar a vida - mas pode ser divertido, nos seus próprios termos.

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quinta-feira, 28 de novembro de 2013

Verdade, Morte & Transfiguração - um dinossauro (eu) na contramão



Existe verdade em música? Melhor dizendo, existe verdade em interpretação musical?

Verdade, no sentido de que: 

uma certa maneira de realizar certa música seja intrinsicamente mais verdadeira do que outra; mais conectada com a tradição (= o sentir/pensar particular de um certo espaço-tempo) na qual foi gerada; conectada de maneira viva; mais capaz de provocar no ouvinte impressões/sentimentos/pensamentos que remetem ao mundo de energias e motivações do qual o compositor se alimentou, e sem o qual aquela música não existiria, porque não teria motivo para existir.


Existe isso?

Sinceramente - mesmo - não sei.

Mas vivo como se soubesse, e como se a resposta para a pergunta acima fosse um inequívoco Sim!, e não poderia exercer esta profissão se assim não pensasse/sentisse, porque de outra forma ela não teria sentido. 

Existe verdade em música; o que não quer dizer que entrar em contato com essa verdade seja uma tarefa simples; e muito menos, que existam "donos da verdade". Não vivemos no espaço-tempo no qual viveu Quantz, para quem "das wahre gute Geschmack" (o verdadeiro bom-gosto musical) era algo palpável, quase óbvio. Hoje dizemos: "gosto não se discute"; e ficamos orgulhosos do perfume democrático que exala dessa frase. 

Teresa Berganza esteve uma vez em Porto Alegre - seu lindo cabelo já estava grisalho (coisa que ela não escondia), seu instrumento vocal já não era tudo aquilo - e interpretou em um recital no TSP a Habanera da Carmen de Bizet. Lembro como se fosse hoje - e não por ter excelente memória, que não é o caso - aquela dama no centro do palco - o qual não continha outro elemento a não ser um piano, um pianista, e ela - que com um vestido rodado, uma classe indescritível, uma economia de gestos impressionante, e um poder de sugestão quase sobrenatural, nos fazia sentir a volatilidade das paixões e a perfídia de Carmen, e nos fazia enxergar - não apenas Carmen, mas toda a cena, a praça, a tensão, os figurantes…

Este ano tivemos a oportunidade de ouvir um grande violinista - Maxim Fedotov - capaz de nos transportar para o universo de Tchaikovsky, e de inspirar, motivar e influenciar meu estudo de flauta durante semanas.

Nesta última terça-feira, tivemos Carmen (traduzida por Sarasate), e tivemos violino, e tivemos grande virtuosismo. Colegas, regente, platéia foram unânimes em louvar as virtudes de nossa solista da noite, Rachel Barton Pine.


É como se o fazer musical de Teresa Berganza e de Maxim Fedotov, de um lado, e o o fazer musical de Rachel, de outro, viessem de planetas diferentes.

Sinto-me até encabulado em manifestar opinião tão solitária; afinal de contas, Rachel é brilhante violinista, tem linda sonoridade, é muito carismática, e obviamente não carece de minha aprovação. 

Mais não digo, porque não saberia como pôr em palavras, e também porque não é assunto que se possa debater de maneira construtiva (a não ser que os debatedores tenham base vivencial semelhante).

Sou quiçá um dinossauro na contramão da história. Mas mesmo um animal em extinção não perde seus instintos mais preciosos.

Morte e Transfiguração 

Richard Strauss provavelmente desdenharia a tese acima. Sua visão de música era muito mais "sensacionista" (para usar, de maneira possivelmente incorreta, um termo de Fernando Pessoa) e muito menos idealista ou filosófica - ao contrário de seu contemporâneo Gustav Mahler. Não por coincidência, há gente que adora Strauss e não gosta de Mahler, e há os que louvam Mahler e não conseguem gostar de Strauss. Há também quem consiga gostar igualmente de ambos. Não é meu caso. A música de Strauss sempre me pareceu pouco interessante, excessivamente grandiloqüente, desnecessariamente difícil, tecnicamente, para o conteúdo. Uma música "gordurosa" por assim dizer. Isso não quer dizer que eu a achava ruim enquanto composição - longe disso - apenas que ela não me dava prazer. Essa é uma distinção importante.

Ontem, porém, eu não apenas gostei da música de Strauss - fui tocado por ela, raptado para dentro do seu próprio universo; morri e me transfigurei junto com seu imaginário protagonista. 

A partir de hoje, tiro o chapéu respeitosamente para Richard. Tenho pela primeira vez vontade de ouvir suas músicas em casa, e não apenas por obrigação de ofício.

Para complicar ainda mais a questão da verdade em música: Strauss compôs Morte e Transfiguração aos 25 anos, antes de ter sofrido sequer uma enfermidade grave; e também não se baseou em nenhuma história ou modelo; a idéia é um produto de sua imaginação e fantasia prodigiosas. Posteriormente, ele forneceu o programa para Morte e Transfiguração, e seu amigo e mentor Alexander Ritter colocou o argumento em versos.

Acho que a surpreendente mudança de gosto que me aconteceu diz muito sobre a qualidade da versão de Morte e Transfiguração realizada anteontem pela OSPA, com a direção/interpretação do regente Nicolas Pasquet. Um concerto digno de encerrar uma temporada de (assim chamados) Concertos Oficiais.

Um colega aposentado, pai de dois músicos da orquestra, elogiou com evidente e emocionado entusiasmo a apresentação, e não escondeu sua surpresa em ouvir a Orquestra soar tão bem tocando uma obra tão difícil. O que rendeu boas risadas nos bastidores pós-concerto. Um outro colega - que é conhecido mais por seu sarcasmo do que por seu entusiasmo - ouvia atentamente, e não se lhe ocorreu nenhuma tirada brochante (como seria esperado), apenas um breve e raro comentário positivo e satisfeito. 

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Violino ou Música?


Não pude deixar de notar que um certo casal de instrumentistas/professores eméritos, importantes formadores de opinião, deixou o Salão de Atos durante o intervalo. Talvez tivessem um compromisso premente; talvez estivessem muito cansados; não sei e não quero julgar. Mas alguém me contou que com eles foram-se embora vários estudantes de música; isso já me parece algo triste (para os professores, que estão dando mau exemplo, e para os alunos, que estão seguindo este modelo). 

Quando vamos ter outra oportunidade de ouvir Morte e Transfiguração em Porto Alegre? Estudantes de música não seriam supostamente jovens ávidos por conhecer e curtir as obras musicais mais geniais e importantes? Ouvir grande música, ao vivo, não é um requisito básico na formação de um músico?

Last but not least: é possível gostar de violino mas não gostar de música?

Lembro-me de uma época - já faz bem mais de uma década - quando tal comportamento era comum. Uma porção significativa do público ia embora após ouvir a peça com solista, especialmente quando este era alguém de grande fama. Essa parte do público não considerava a Orquestra, em si mesma, digna de ser ouvida. A Orquestra era apenas um mal necessário para que aqueles grandes concertos para piano ou violino pudessem ser tocados.

Eu creio que essa época está superada, e que este tenha sido um fato isolado.

Ontem, pudemos pudemos nos maravilhar com o brilho cintilante e a incrível paleta de cores da orquestração de Richard Strauss; surfamos nas ondas oceânicas de sua massa sonora; perdemo-nos nos labirintos de suas harmonias complexas; cantamos jubilosamente suas melodias; morremos e nos transfiguramos; e lavamos a alma.

Quer saber? Azar de quem não ficou. 

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Hoje, mais de um mês após ter publicado este post, me aparece um texto como que predestinado para servir de conclusão e food for thought. Trata-se de um trecho de uma carta escrita em 2011 por um grande músico - Gidon Kremer - na qual ele comunica o cancelamento de sua participação em um prestigioso festival de música clássica. A carta está publicada na íntegra aqui no blog do Norman. E abaixo o trecho escolhido e por mim traduzido. Maiúsculas conforme o original.


"Esta não é mais a "minha" época. Eu a deixo para aqueles que nela acreditam, sejam as platéias ou a nova geração de instrumentistas, que possuem abundantes capacidades para agradar às multidões, mas que estão eles mesmos, freqüentemente, bastante VAZIOS e artisticamente perdidos, correndo atrás da fome de reconhecimento acima da habilidade."




O violino de Gidon Kremer (esq) a serviço da música de Arvo Pärt (dir)

quinta-feira, 20 de junho de 2013

A Quarta



Tchaikowsky, Quarta Sinfonia. Theatro São Pedro, 18 de junho de 2013. Orquestra Sinfônica de Porto Alegre. Maestro Shinik Hahm (Coréia-EUA), cuja reputação extra-palcos apresenta algumas manchas (amplamente repercutidas pelo crítico/blogueiro Norman Lebrecht); mas que aqui tem feito um trabalho extraordinário, e além disso, veio mexer positivamente com os brios dos músicos, tentar fazer-nos resgatar o orgulho e postura profissionais atualmente um pouco debilitados.


O complexo 1º movimento da Sinfonia começou bem - a temida introdução dos metais em fortissimo e uníssono descoberto foi provavelmente a melhor da história da OSPA. A escolha do andamento para o longo e intrincado Moderato con Anima, bastante generosa por assim dizer, teria o potencial de prejudicar a continuidade, retirar tensão musical, produzir monotonia - mas nada disso aconteceu, na minha opinião. O fraseado, trabalhado com muito esmero durante os ensaios, brotou e desabrochou no palco do TSP: nas madeiras com clareza, nas cordas com calor e coesão, nos metais com gravidade; em todos com qualidade e afinação. Dirigindo de memória, o regente entregava-se totalmente ao momento, ajudando os músicos a fazermos o mesmo.




Em momentos como esse coisas um pouco estranhas podem acontecer.


De repente - ainda estamos no imenso 1º mov. - uma determinada frase musical ressoa de maneira particularmente forte dentro de mim. Essa frase parecia ganhar vida e adquirir uma voz, e essa voz parecia revelar o sentido emocional exato daquela frase, no momento em que foi concebida na mente de Tchaikowsky.

Mais adiante - mais ou menos a esta altura do 1º mov. -


...vislumbro uma paisagem rural; o cotidiano de aldeões russos no século XIX. Os aromas desse lugar imaginado me chegam - literalmente - ao olfato (!). Nesse instante, tempo e espaço são relativizados; as alegrias e tristezas, as belezas e as agruras das vidas dessas pessoas de outrora e alhures são tbém as minhas alegrias e tristezas, são tbém as belezas e agruras de aqui e de agora.


O 3º movimento - Scherzo - me proporciona uma trivial satisfação de músico pequeno: logro fazer soar com clareza todo o conteúdo desta difícil (mas não a mais difícil) página da sinfonia.



Durante o Finale - desafiador, virtuosístico, heróico - de súbito, um novo insight, de um outro tipo.

Primeiro, ecoa a lembrança de uma frase proferida pelo amigo Beto Flach (durante uma manifestação na Restinga, a Pedalada do Davi), que foi mais ou menos assim:

"…um dia, cada um de nós vai dar a última pedalada…"

…e então, fitando o papel amarelado, essa partitura gasta por décadas de uso, enquanto conto as pausas e espero minha próxima entrada, espero a próxima frase fulgurante deste Finale, fica muito claro que

                                          um dia

                                                                  um certo som (de flauta)

                                                                                                             vai ser o derradeiro.


Bem antes disso (espero), vou tocar a Quarta pela última vez.

Será hoje?!

Nesse momento torço para que esta não seja a minha última Quarta; não tanto por apego, e mais por brio profissional: pois sinto o agradável dever de tocá-la com ainda mais brilho, um mais próximo da inatingível perfeição. Esta vez está sendo a melhor da minha provinciana carreira, mas sei que ainda é possível melhorar mais.




 


 Um dia depois, especulo: a alta dificuldade técnica de certas composições não será justamente um componente importante do seu universo emocional e expressivo? Teria essa quase impossibilidade de tocar 100% limpo e "perfeito" a função de nos ajudar a manter  tensão musical, a intensidade da experiência, o "não-deixar-cair-a-peteca" do início ao fim?

Não tenho a resposta para essa pergunta, mas uma coisa acho que posso afirmar: ontem não fomos perfeitos, mas a peteca não caiu; passeou pelos ares, de mão em mão, durante mais de 40 minutos.




p.s.: as 2 primeiras fotos são de autoria do Augusto Maurer


quinta-feira, 24 de novembro de 2011

O Retorno do Trio (I Canoas Jazz)





Fazia pelo menos 10 anos que não tocávamos juntos nesta formação: Dunia Elias, pianista/compositora, Giovani Berti, percussão, e este blogueiro (Artur Elias) à flauta. Em 1999 e 2000, com o nome de Ombro Amigo, esse trio fez fez vários shows Porto Alegre e  duas turnês pelo Interior do Estado.

A oportunidade surgiu quando a Dunia foi convidada para o I Canoas Jazz Mercosul e decidiu compartilhar este momento comigo. Lembramos do inigualável Giovani e dos bons momentos que passamos juntos. Felizmente ele tinha a data disponível; marcamos um reencontro/ensaio, e o clima surgiu na hora, a música flui como se nunca tivéssemos parado.

A base do nosso repertório era (e ainda é) o choro. Nosso estilo é bastante enraizado na tradição, e inova na instrumentação, bastante atípica para o gênero. Neste show vamos tocar várias composições da Dunia, que é um dos diferenciais do Trio. 

O I Canoas Jazz é um evento impressionante. Durante esta semana passarão por lá dezenas de excelentes músicos, alguns grandes artistas, e pelo menos um gênio da música universal: Hermeto Pascoal.

Não deixe de conferir a programação na página oficial do festival. Mais bacana ainda é o blog Jazz Mercosul, que repercute os shows de cada dia com fotos e vídeos. 

E se quiser prestigiar o Trio, nosso show é amanhã (sexta-feira, dia 25), na Estação São Luiz do Trensurb, às 18:00. Repertório: composições de Paulinho da Viola, Maurício Carrilho, Severino Araújo, Pixinguinha e Dunia Elias. 

Participação muito especial de outro grande amigo, o cantautor/violonista Leonardo Ribeiro.

Ou aguardem - estamos voltando!






sábado, 8 de outubro de 2011

IV Encontro Estadual de Flautistas RS


Começa hoje!





PROGRAMAÇÃO MUSICAL DO ENCONTRO



RECITAL  I

8 DE OUTUBRO (SÁBADO)
STUDIO CLIO às 20:30

Georg Philipp Telemann (1681-1767)
Quarteto em mi menor, “Parisiense”

Flautista Cláudia Schreiner (traverso)
Vinícius Nogueira violino        Diego Schuck Biasibetti viola da gamba
Ana Paula Freire contrabaixo        Fernando Turconi Cordella cravo



Joachim ANDERSEN (1847-1909)
Estudo op. 63 nº 12, em sol # m
Frédéric F. CHOPIN (1810-1849)
Estudo op. 25 nº 1, em lá b M
Joachim ANDERSEN

Estudo op. 15 nº 5, em Sol M
Gary SCHOCKER (1959)
Estudo nº 2

Estudo nº 7

Robert DICK (1950)
Estudo nº 1 (de “Flying Lessons” – Contemporary Concert Etudes)

Hermeto PASCOAL (1936)
Estudo para 2 Flautas*

Flautista Artur Elias Carneiro  (*Participação especial: André Mendes, flauta )


INTERVALO


 Camargo Guarnieri (1907-1993)
Improviso no 3 (1949)
Sigismund Neukomm (1778-1858)
Fantasia (1825)
César Guerra Peixe (1914-1993)
Melopéias no 3 (1950)
Marlos Nobre (1939 - )
Solo I (1984)
Edino Krieger (1928 - )
Tocatta Breve (1997)
Paulo Costa Lima (1957 - )
Aboio op. 65 (2002)

Flautista Lucas Robatto



Osvaldo Lacerda (1927-2011)

Improviso #1 para flauta solo
Ian Clarke (n. 1967)

Zoom Tube
François Borne (1840-1920)
Fantasia Brilhante sobre temas da ópera Carmen de Bizet

Flautista  Danilo Mezzadri
Leandro FaberPiano








RECITAL  II

9 DE OUTUBRO (DOMINGO)
STUDIO CLIO às 19:30





Diego Silveira
Tango de Oon  Feldman para 4 flautas(estréia mundial)

Flautistas André Mendes   Cláudia Schreiner    Leonardo Winter   Artur Elias



 

Eugène Bozza (1905-1991)

Image, Op.38, para flauta solo
Igor Stravinsky (1885-1971)
Suite Italienne


Flautista João Batista Sartor



 

Alexandre Eisenberg
Prelúdio e Fuga, para duo de flautas*

Amaro Borges

Aspectos de Uma Casa (sobre poema de Carlos Drummond de Andrade), para flauta e piano (estréia mundial)

Flautista Alexandre Eisenberg   (*Participação especial: Artur Elias )
Vera Vianna, piano



  INTERVALO



Olivier Messiaen (1908/1992)

Le Merle Noir-1952
Januibe Tejera (1979)

 Sonata-2004
Flautista André Mendes
Joana Holanda piano





Marin Marais (1656-1728)
Les Folies d'Espagne

Gabriel Fauré (1845-1924)

Sonata em Lá M op. 13



Flautista Ramson Wilson
Cristina Caparelli Gerling, piano





quarta-feira, 29 de junho de 2011

Réquiem de Brahms - Ressurreição de Blog


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As primeiras frases da música esgueiravam-se, suaves, belas, quase pastorais, um pouco escuras por serem dedicadas exclusivamente aos instrumentos graves de cordas - os violinos só entram a partir do 2º movimento. Logo entrava o coro: 

Selig sind, die da Leid tragen,
denn sie sollen getröstet werden

Bem-aventurados os que padecem sofrimentos,
pois eles serão consolados

Estava estabelecida uma atmosfera de grande atenção, contemplação emotiva, de uma doce tensão, por assim dizer, que não seria quebrada durante os cerca de 70 minutos que dura o Réquiem Alemão de Johannes Brahms.
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Johannes Brahms por Eduardo Moctezuma


Então este foi mais um concerto oficial da OSPA. A Igreja da Ressurreição, nas dependências do Colégio Anchieta, nos recebeu pela segunda vez este ano; e revelou-se local mais do que adequado para esta genial obra do repertório sacro. Tirando o frio intenso, que nos fez sofrer muito no ensaio, mas que felizmente não conseguiu espantar o numeroso público. E, afinal de contas, recompensados foram os que aceitaram sofrer um pouco com a baixa temperatura.

O regente (Manfredo Schmiedt) e os solistas vocais (Susi Georgiadis e Daniel Germano) tiveram  excelente atuação. Foram realmente muito, muito bem. Quando à Orquestra, bem... a modéstia me impede de tecer maiores considerações.

A grande estrela do concerto, entretanto, foi o Coro Sinfônico da OSPA

O grupo vem progredindo de maneira consistente há muitos anos. Lembro-me muito bem da primeira vez que realizamos o Réquiem Alemão, com um grande regente convidado, Kurt Redel. Chegou-se a cogitar o cancelamento do concerto, pois às vésperas do mesmo, o coro mostrava enormes dificuldades para vencer os desafios vocais, melódicos, e harmônicos, da composição de Brahms. Houve um voto de confiança, muito trabalho, e, com grande superação pessoal de todos os envolvidos, conseguiu-se fazer o concerto. 

Ano passado levamos o Réquiem 2 vezes, uma em Novo Hamburgo, outra na Igreja São Pedro (se não me engano), aqui em PoA. O coro já não mostrava grande dificuldade "com as notas", por assim dizer. O texto musical estava seguro. Mas havia ainda dificuldades significativas com a afinação, nos trechos não apoiados pela orquestra, e nas complexas modulações brahmsianas. Havia tbém alguma dificuldade técnicas nas passagens agudas; por vezes o naipe de sopranos soava duro, um pouco gritado. Mesmo assim foi um belíssimo concerto, num nível muito superior àquele dos anos 90. 

A versão de ontem mostrou um coro quase que completamente seguro, à vontade. Vibrante, reagindo prontamente à direção do regente. Capaz de grandes contrastes dinâmicos. Capaz de se fazer ouvir sobre a orquestra, sem gritar. E aquelas passagens difíceis, que soavam mal ano passado? Não fui capaz de reidentificá-las. Pelo jeito deixaram de ser tão difíceis! Não é pouca coisa para um grupo não-profissional e não-remunerado, que dedica à música "apenas" uma boa parte de suas horas de lazer.

A dedicação dessas pessoas é uma inspiração. Oxalá que mais amantes da música larguem um pouco seus toca-discos e se dediquem a um fazer musical verdadeiro. Isso lhes trará incomparável satisfação e um insight que a experiência passiva de escuta - especialmente associada à reprodução mecânica de música - é incapaz de gerar. Música gravada é música morta. Quem faz música passa a entender um pouco aquilo que os outros só observam de fora. Quem faz música ouve música de uma maneira completamente diferente. Quem faz música adquire um respeito pela música viva e uma capacidade maior de curtir a experiência de escuta.




Isaac Karabtchevsky, nosso ex-Diretor Artístico, costumava dizer: "nada vem do nada".

Manfredo Schmiedt vem se dedicando a selecionar, treinar, ensaiar seus cantores há mais de 20 anos, enfrentando todas as dificuldades que advém do simples fato de se tratar de um grupo amador: pessoas que vêm e vão, falta de formação musical, só para mencionar duas.

A preparação vocal do Coro está atualmente nas mãos do barítono Ricardo Barpp. O Coro conta tbém com o regente assistente Diego Schuck. Dois músicos diferenciados, de grande talento, com quem já tive oportunidade de trabalhar algumas vezes.

Mas por que isso é importante, afinal?

Porque o grande repertório coral-sinfônico é parte importante da vida musical de qualquer comunidade. Algumas das obras mais geniais pertencem a esse gênero. Quando a voz humana e a palavra cantada se somam ao já complexo som de uma orquestra sinfônica, acontece alguma coisa que consegue transcender tanto a voz, a palavra, quanto a própria orquestra. Essa experiência é maravilhosa.

Porto Alegre e região têm muitos coros, então a música coral é relativamente bem difundida. Porto Alegre tem algumas (poucas) orquestras; desde o desmantelamento da Filarmônica da PUC, somente uma Sinfônica. A música orquestral está presente, ainda que não tanto como gostaríamos, e em constante risco. Entretanto, ouve-se muito pouco do grande repertório de oratórios e outras obras coral-sinfônicas. A paisagem musical fica incompleta. Nós músicos precisamos ouvir e praticar mais esse gênero. Nós instrumentistas de sopro muito particularmente; o coro é o modelo básico segundo qual o conceito de "naipe" deve ser moldado. Os estudantes de música precisam ouvir tbém.


O Réquiem Alemão conseguiu ressuscitar este Blog Brasileiro (que estava catatônico há muitos meses). Valeu, Johannes!